quarta-feira, 8 de outubro de 2014

A enfermeira e a “Mulher dos Gatos”.


Havia uma enfermeira que morava numa rua sem saída. Vestida em um uniforme impecavelmente limpo, branco como seu sorriso largo, ela saía todos os dias de madrugada para trabalhar num grande hospital.

Havia uma mulher que morava numa outra rua, que não era sem saída, mas bem próxima desta. Todos a conheciam como a “Mulher dos Gatos”.

A “Mulher dos Gatos” perambulava pelas ruas, arqueada com o peso das sacolas que carregava em suas mãos. Às vezes ela caminhava apressada, noutras ia bem devagar. Olhava por todos os cantos como se procurasse por algo ou alguém. Falava sozinha e fazia ruídos. Uma mulher estranha. Assustadora para as crianças menores, pois havia todo um folclore sobre a vida desta mulher. O que ela fazia afinal? Quem era ela? Seria uma bruxa? 

 A imaginação da criançada na rua sem saída e  vizinhança fervilhava. Os menores tinham medo da “Mulher dos Gatos”, pois sempre que desobedeciam à suas mães elas diziam: - Se fizer isso de novo eu vou pedir pra “Mulher dos Gatos te levar. As pobres crianças estavam sempre correndo perigo. Ou era a "Mulher dos Gatos" ou o "Homem do Saco" ou o famoso "chinelo na bunda". As mães sabiam mesmo usar a tal "psicologia infantil".

Já entre a criançada mais velha circulava a lenda de que a “Mulher dos Gatos” andava sem calcinhas. Será?

Quando a  “Mulher dos Gatos” circulava pelas ruas do bairro a meninada alvoroçada espichava os olhos para ver se ela realmente estava sem calcinhas. Só que tinham tanto medo da velha senhora que ficavam de longe a espiar e cochichar.

Certo dia, a enfermeira de sorriso largo estava em sua casa a descansar quando bateram à porta. Era alguém que viera pedir ajuda para um doente. A enfermeira rapidamente pegou seus apetrechos de enfermagem e foi ter com o doente.

Quando a enfermeira chegou ao portão da casa foi recebida por dezenas de gatos que miavam em coro. Havia gatos de todos os tamanhos e cores, filhotes, adultos e velhos.  Gatos no muro.  Gatos no telhado. Eram gatos para todos os lados. A enfermeira caminhava com cuidado, olhando para o chão temendo pisar em algum felino.

Ao entrar na casa a enfermeira de sorriso largo encontrou a “Mulher dos Gatos”  ardendo em febre. Na cama com a mulher havia gatos de todos os tamanhos e cores, espichados e encolhidos, pelos longos e pelos curtos. Eles estavam sentados, deitados em  cadeiras, sofás, janelas, mesas, armários, pendurados em lustres, escondidos em caixas e latas. Todos os espaços eram ocupados por gatos.

A enfermeira de sorriso largo gentilmente cuidou da “Mulher dos Gatos”, por muitos dias, com paciência e carinho, até ela ficar boa e se levantar da cama para cuidar dos felinos.

A gentil senhora amava os animais e dedicou a sua vida a alimentar gatinhos abandonados. Era uma mulher caridosa que abrigava animais que ninguém mais queria. 

Certo dia, a enfermeira de sorriso largo estava em sua casa a descansar quando bateram à sua porta. Era a “Mulher dos Gatos”.  E trazia em suas mãos uma enorme e cheirosa torta. Foi o modo que encontrou de agradecer o carinho e dedicação da enfermeira.

A enfermeira de sorriso largo, um pouco constrangida, aceitou a torta. E a “Mulher dos Gatos” foi embora feliz enquanto a enfermeira olhava para aquela enorme torta em suas mãos.

Então, a enfermeira criou coragem e resolveu experimentar a enorme e cheirosa torta. E ao cortar uma generosa fatia da torta, ela viu pelos de gatos, longos e curtos e de todas as cores no recheio da torta. Só faltou a torta miar. E você? Quer um pedacinho de torta da “Mulher dos Gatos”?


Saiba você que esta história é pura ficção e qualquer coincidência é mera semelhança. Ou qualquer semelhança é mera coincidência?

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

A minha mãe não morreu.

Diz a sabedoria popular que filhos são como os dedos das mãos. Um é diferente do outro.  E eu digo que isto também é válido para as mães. Todos nós podemos encher a boca e dizer que temos a melhor mãe do mundo. Porque temos. Cada mãe é um ser único. E o amor que a mãe sente por seus filhos também é especial e único.

Hoje, 26 de setembro, minha mãe completa 86 anos. Teve onze filhos, vinte e três netos e bisnetos a perder de vista. E somos todos diferentes. Cada qual com sua singularidade.
Quando soube da morte de minha mãe, o chão abriu sob os meus pés. Meus muros ruíram e desabei num pranto enlouquecido de tanta dor. Recomposta, fui ao hospital ter com os outros irmãos. E lá mergulhei num triste silêncio anestesiador.

Durante o funeral aproximei-me de seu caixão no máximo umas três vezes.  Minhas irmãs se revezavam o tempo todo em volta dela. Entoavam cânticos e orações, mas eu... Eu preferi ficar sentada numa mureta olhando as árvores e flores do lugar. Só me aproximei dela, novamente,  quando do sepultamento. Foi a última vez que estive naquele lugar. Nunca mais voltei.

Minhas irmãs, sempre que podem, vão visitá-la. Dia das mães, aniversário, finados... Levam flores, limpam a placa de bronze, contam-lhe as novidades. Todos os filhos. Menos eu. Filhos são como os dedos da mão. São diferentes. E para mim, a minha mãe não morreu.

A minha mãe está aqui comigo. Eu a vejo quando estou no jardim mexendo com as plantas ou quando as orquídeas florescem. Minha mãe está comigo quando preparo bolo para receber as minhas filhas e genros. Como ela fazia comigo. Enxergo minha mãe em minhas palavras e atitudes.

Eu vejo minha mãe em cada irmão. Na Guiomar quando está com a casa cheia, a mesa posta, lotada de delícias. Aquele cheiro de temperos por todos os lados. Eu vejo minha mãe em todos os gestos da Guiomar. O mesmo jeito e alegria em receber e alimentar a família. A minha mãe está nela.

Quando olho para a Vivi, no alto dos seus setenta e dois anos, linda, e  com aquele sorriso que quebra qualquer mau humor, a minha mãe está lá. Já me disseram que ver a Vivi dormindo é ver a minha mãe dormindo. 

Quando vejo o sorriso gostoso da Neusa, o carinho do Beto, a tranquilidade do Zé, o dengo do João com os irmãos, as habilidades manuais da Maria, o pragmatismo da Jê, a malevolência da Nicinha e a praticidade da Edina, consigo enxergar em cada um de meus irmãos uma parte da minha mãe. Um pedaço dela está em cada um de nós.

Cemitério é o fim de tudo. Lugar dos mortos. O que é finito. Só que minha mãe não está lá. Ela está em cada filho que ficou. Em cada gesto. E em cada olhar. Nas festas, almoços, no “pão da Vó”.
   

Portanto, a minha mãe não morreu. Somos onze ”Iracis”.  Feliz aniversário mãe.


quarta-feira, 1 de maio de 2013

Esperança


Depois de um longo dia de trabalho ligo a TV para saber as boas novas.E o que vejo? Jovens saudáveis e bonitos contando como atearam fogo numa mulher  só porque ela tinha apenas míseros trinta reais. A vida desta mulher custou trinta reais.

Em seguida, não só ouço o jornalista narrar como assisto ao “Big Brother” da vida real aonde um homem vai até uma pizzaria reclamar com o proprietário por causa de uma entrega de pizza. O proprietário saca uma arma e o ameaça. Tudo isso acontece na frente das duas filhas do cliente descontente. Essa cena já seria chocante o suficiente, mas não! Ele atira, de novo e de novo. E uma das filhas vai parar na UTI com uma bala cravada na cabeça. A vida desta menina custou o equivalente a uma pizza. A ignorância de dois homens.

E o apresentador muda de tema e penso: - Espero que seja algo mais leve.Então ele informa que grande parte das casas e apartamentos do projeto “Minha casa minha vida.” está com problemas de rachaduras, infiltração, infraestrutura. Inclusive tiveram que demolir alguns prédios antes mesmo de serem ocupados pela população. Esse desperdício custou o tempo, o suor, e o dinheiro do trabalhador brasileiro.

Mais uma vez o jornalista muda o assunto e diz: A polícia procura o grupo que assaltou o restaurante. Segundo testemunhas, quem liderava o assalto e empunhava a arma para os clientes era um garoto de onze anos.Novamente penso: - Onze anos... Qual é a idade que estão pedindo para a maioridade penal mesmo?

Comercial. Ufa, até que enfim um refrigério a tanta desgraça. Por pouco tempo, claro.

E o jornalista inicia com: “Duas pessoas foram baleadas num restaurante, na noite passada, ao tentarem desarmar o bandido.  E atenção! Aumentou o número de arrastões em condomínios. Os bandidos usam moradores para entrar nos apartamentos e render as vítimas, inclusive usando métodos de tortura. E agora vamos falar de futebol. Vamos ver como está o andamento dos estádios para a Copa!”. Desliguei a TV. Melhor mesmo é ir dormir.

O que está acontecendo com as pessoas? Estupro na Índia. Pedofilia no Velho e Novo Mundo. Massacre no Oriente. Bombas mutilando crianças que foram ver os pais na maratona. Políticos condenados assumindo cargos. Político procurado pela Interpol falando na TV que “No meu governo havia mais segurança.”. Macarrão. Bola. Bruno. Elisa. Economia porca que gera incêndio e a morte de mais de duzentos jovens. Cidades turísticas escorrendo com as enxurradas das chuvas. Bêbados atropelando, matando, pagando fiança e saindo pela porta da frente das delegacias. Justiça que liberta os nove bandidos que assaltaram o hotel no Rio. 

Quero acordar deste pesadelo. Fugir deste apocalipse.

No meio da noite acordo. Uma dor no peito... A respiração ofegante... O corpo banhado em suor. Será um infarto? Efeitos do climatério? E uma enorme e inexplicável tristeza invade o meu ser. Vou à cozinha. Tomo um copo de água. Volto para a cama. Em vão fecho os olhos, pois o sono não vem. Amanhece.

Abro a janela do quarto. O céu azul e a luz do sol invade meu quarto, mas ainda pode-se ver a lua. Na varanda há bem-te-vis brincando na quaresmeira. No telhado dois pequenos passarinhos dando seus primeiros voos. Na árvore da calçada um bando de maritacas faz uma algazarra antes de debandar. Enquanto isso o casal de joão-de-barro andam apressados pelo quintal em busca de suprimentos. E as borboletas multicores bailam por entre o verde exuberante das folhagens e das coloridas azaleias, exoras e Maria sem vergonha.

Respiro fundo e me lembro de um amigo distante, Leonel Fonseca, que me lançou o desafio de escrever sobre o amor.  Que desafio.

Depois de tanta notícia desanimadora na noite anterior poder apreciar toda essa beleza e delicadeza da vida é um refrigério para a alma. É a mais pura graça.

Então meu coração se enche de esperança. Eu acredito no amor quando vejo o Arthur preparando com tanto carinho uma sopa quentinha para a Nina que acabara de chegar cansada do trabalho.

Ela se renova quando percebo o carinho e o cuidado da Carol com seus amigos. Ao vê-la ajudar estranhos nas ruas, ao se importar e defender os marginalizados, os que não tem voz.

Vejo esperança para o mundo na dedicação e no amor do Luiz para com as crianças especiais com quem ele trabalha e na sua maneira prestativa e servil com o próximo.  

O amor e a esperança estão na dedicação de pessoas desconhecidas dando e se doando nos momentos de tragédias; no voluntariado;  nos resgates, no trabalho dos médicos sem fronteira, na renovação da vida, no nascimento...

Ainda há esperança. Ainda há amor nos pequenos gestos, nas atitudes. A cada novo ser que nasce. Em cada amanhecer renova-se a esperança e o amor.

terça-feira, 23 de abril de 2013

A Dona Aranha subiu pela parede. Veio a Helo Helena e a derrubou...


Na segunda-feira, meio dormindo, meio acordada fui ao canil cuidar dos cães quando entro apressadamente e minha cabeça rompe uma enorme teia de aranha.

Desesperadamente começo a pular (não sei bem o porquê) e bater minhas mãos sobre a cabeça temendo que alguma aranha pudesse estar sobre ela. Os “The Super Dogs” me olhavam com carinha de interrogação. Provavelmente pensaram que eu estava com pulgas.

Olhei para cima e avistei sob o telhado uma aranha tricolor (amarela, preta e transparente) de aproximadamente uns seis centímetros. Fiquei furiosa. Como é que a aranha foi tecer uma teia justamente na passagem? Será que ela não percebe que atrapalha?

Furiosa, peguei uma vassoura e tirei toda a teia enquanto a aranha observava calmamente tudo lá do alto. Cuidei dos cães, que a esta altura estavam sentados assistindo a cena hilária e voltei para a minha rotina.

No dia seguinte eu já havia esquecido o episódio da teia e novamente minha cabeça foi de encontro a ela, e eu imediatamente me lembrei da aranha (meio tarde pra isso). Novamente eu fiquei pulando e batendo na cabeça. Uma cena ridícula, pois parecia estar fazendo a dança da chuva. Até os cães, solidários à minha pessoa, também começaram a pular.

E a aranha? Ah... A aranha estava escondida lá no alto e provavelmente se divertindo com a minha cena patética. E eu novamente, muito brava, destruí a teia. Ou parte dela.

Depois, já refeita do susto, fui olhar com mais cuidado e percebi que ela havia feito a teia para proteger sua prole que estava envolta numa camada fina de fios presos no telhado. Fiquei arrependida do que fiz. Quase matei os filhotes da Dona Aranha que só queria cuidar dos pequenos... Meu sentimento materno aflorou e quase chorei emocionada, ao ver aquelas pequenas e indefesas criaturinhas que dependiam apenas da sua mãezinha querida.

Então no terceiro dia eu tomei cuidado de tirar apenas o fio da teia que atrapalhava a passagem, mas sem danificar. E pude observar que os bebês da aranha já estavam na teia berçário e a Dona Aranha os vigiava como uma mãe zelosa zela pelo sono de seu filho amado.

E isto se repetiu por toda a semana. Todos os dias eu desmanchava parte da teia que atrapalhava a passagem, mas sempre de maneira delicada tomando o cuidado para não assustar a mamãe aranha e seus filhotes.

Ontem tive uma grande surpresa. A Dona Aranha também foi gentil comigo, pois desta vez ela teceu os fios que seguram e protegem a teia berçário do lado oposto. A passagem finalmente ficou livre. Foi um acordo silencioso. Uma atitude de respeito entre duas mães que sabem da importância de se cuidar e de proteger os filhos.

Bom, ou ela percebeu que eu não queria machucar sua família e retribuiu a gentileza ou ela se cansou de refazer a teia e a mesma ser destruída que resolveu mudá-la lugar.

Como hoje estou romântica ( ou tomei muita água de chuva) prefiro a primeira opção. E como dizem por aí gentileza gera gentileza.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Vai de seminovo ou prefere o trem azul?


É incrível como somos inundados com palavras e frases que não refletem a verdade. Ao invés disso nos ofertam frases maquiadas e com roupas de festa, seja na mídia impressa, TV ou mídias sociais. Tem sempre um criativo de plantão usando uma frase ou palavra de efeito para tentar impressionar e vender seja o conceito, o produto ou serviço.

Quem já não viu ou ouviu: “Compre aqui seu seminovo!” - ou “Aceitamos seu usado como parte do pagamento!”.  O interessante é que eles te vendem um veículo seminovo e você entrega um veículo usado.  Uma concessionária jamais te venderia um veículo usado, pois só trabalha com seminovos. Ai de você se achar que um carro seminovo é o mesmo que usado.

Já viram anúncios de imóveis que ficam em condomínios localizados nas cidades que circundam as capitais? “Tenha qualidade de vida morando no condomínio Paz e Sossego, a quinze minutos de São Paulo”.  
Só não explicaram que esses quinze minutos são de helicóptero, pois de carro, se tudo correr bem, levará uma hora ou uma hora e vinte minutos. Agora, se chover...

E os bancos? Já prestou atenção nos anúncios criados para os bancos? Parecem até mensagem de autoajuda com música que te coloca em transe, imagens bucólicas e pessoas felizes. Todo mundo feliz: família, funcionários, gato, cachorro. Aí você vai ao banco e já pega fila antes mesmo dele abrir. Depois fica preso do detector de metais. Ao ser liberado, você entra numa fila única que se estivesse fora do banco dobraria o quarteirão. E quando está prestes a ser atendido um  dos atendente se levanta e coloca a placa de caixa fechado. E quando atende mal te olha, pois está preocupado com a hora marcada com o terapeuta e o remédio para gastrite que precisa tomar.

Você já se perguntou por que a maioria das lojas coloca a famigerada frase “Desconto de até 70%”? Esse desconto é igual mula sem cabeça ou o ET de Varginha. Ninguém viu, mas que existe, ah sim, existe. Outro dia eu recebi uma newsletter oferecendo produtos com desconto de até 70%. Entrei na hora no site, e para minha tristeza todos os produtos que foram ofertados apareciam com a palavra “esgotado”  e ao lado a oferta de produtos similares com preços maiores.

Agora o que tem me deixado indignada é a propaganda “Trem Azul” da TIM. Esse é imbatível. Os criadores do trem azul da TIM são meus heróis. Cada vez que começa a propaganda do Trem Azul da TIM eu preciso de um calmante para não quebrar a televisão.
Primeiro mostram um trem azul cortando a metrópole e interligando todas as regiões. Um trem como este é o sonho de qualquer morador de São Paulo e grande SP. Imagina ficar preso dentro de um ônibus, trem, carro por duas horas e depois chegar em casa e ver esse anúncio.
Depois tentam te convencer de que sua vida vai melhorar, seja no âmbito profissional ou pessoal por causa da TIM. Como? Mágica? Vão te dar emprego? Vão investir na sua startup? E para fechar eles mostram as pessoas utilizando os serviços da TIM dentro do trem e em outros lugares como se isso fosse verdade.  Meu vizinho para conseguir sinal da operadora sobe em cima do muro do quintal. Tenho um amigo que só consegue sinal quando está dentro de uma sala de cinema. Quando recebo visita pergunto logo qual operadora de celular ele usa e se for TIM eu mostro logo aonde fica o telefone fixo. Vai que  precise dar um telefonema.

Esse é meu mundo. Então eu pego o meu carro usado e saio de casa que fica a quinze minutos do centro da capital e entro num congestionamento monstro. Aí acabo adormecendo e sonho que estou andando no trem azul. Até que alguém que acabou de comprar um seminovo bate na traseira do meu carrinho usado. Tiro da bolsa o celular com chip da TIM para acionar a seguradora e descubro que está sem serviço. Mesmo assim não fico chateada, pois sei que as lojas do shopping  fecharão às 22 horas e estão com descontos de até 70%.

Se chover, não dirija. Não saia de casa.
E se beber, não dirija.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Carnaval! Todo dia é tudo igual. Carnaval...


Mais uma vez, carnaval. E como foram nos anos anteriores, tudo igual. Um evento onde no calendário só aparece marcado como feriado a terça-feira, mas que na realidade tudo para ou vai mais devagar a partir da sexta-feira que antecede a terça-feira “gorda” ou a “quarta-feira santa”.

E põe devagar nisso, pois o povo que vai viajar no carnaval já entra no engarrafamento na porta de casa. Saiu com o carro da garagem, parou. Viagem que duraria uma hora e meia vira quatro, cinco, seis, até sete horas de viagem.

Justamente o paulistano, um sujeito cansado de passar boa parte da vida preso dentro de um veículo em meio a um engarrafamento, não vê a hora de chegar o carnaval para botar o pé na estrada e fugir... Do engarrafamento.

E no carro vai pai, mãe, mulher,  filhos, noras, genros, netos, cão, gato, fralda geriátrica e paciência.  Muita paciência, senão é melhor nem sair de casa.
Há muitos e muitos anos, quando minhas moças ainda eram apenas menininhas loirinhas de olhinhos azuis, decidimos passar os quatro dias do carnaval no litoral, num clube em Caraguatatuba. 

Já sabendo que o trânsito seria intenso combinamos sair na sexta-feira entre quinze e dezesseis horas. Malas prontas, sacolas com brinquedos, biscoitos, frutas e sucos arrumados, colocamos tudo no carro, inclusive as filhas. Partimos. Entramos na marginal Tietê às dezesseis horas e por volta das dezenove e trinta estávamos saindo dela para entrar na rodovia dos Trabalhadores (agora chamada de Ayrton Senna). Três horas e meia de marginal.

Uma paradinha rápida - Para quem não é de São Paulo, as marginais são vias rápidas utilizadas por quem precisa acessar as principais rodovias ou chegar mais rapidamente nas zonas norte, sul, leste e oeste. Via rápida quando não chove (e não inunda), não é véspera de feriado prolongado, e não é a hora em que o povo está indo ou saindo do trabalho. Diz a lenda que esse trecho, sem trânsito, se percorre em vinte ou trinta minutos. 

Continuando a viagem -  Quando pegamos a estrada respirei aliviada e pensei “Agora vai. Vamos jantar  num restaurante na praia. Oba!”.   Será?
Começamos a descida da serra. Quando estávamos naquele trecho onde não há nada à direita nem à esquerda, exceto mato, despenhadeiro e escuridão, tudo parou.

A princípio pensamos que tivesse acontecido um acidente. As pessoas foram desligando seus carros, abrindo as portas e caminhando para tentar descobrir o que havia acontecido. Alguns já começavam a festa de carnaval ali mesmo. Colocavam músicas carnavalescas no último volume, abriam e tomavam cervejas e dançavam em volta dos carros enquanto jogavam charme para quem quisesse.

Foi aí que também saímos do carro para saber o motivo de tudo estar parado. Então descobrimos que os carros não andavam na rodovia porque ela estava travada. Ninguém subia ninguém descia.

Aconteceu o óbvio. Os apressados e egoístas de plantão começaram a descer pelo acostamento e não satisfeitos também usaram a contramão.  A certa altura quem pegou a contramão deu de cara com carros subindo e tudo travou. 

Foi preciso a polícia rodoviária chegar para colocar ordem no trânsito.  E já passava da uma da manhã. Ainda bem que eu havia reforçado a sacola de lanches das crianças.  Finalmente pudemos chegar ao destino quase duas horas da manhã, exaustos, famintos, irritados e com uma vontade enorme de fazer xixi. 

Foi a última vez que estivemos nesse clube de praia. Vendemos o título.

Certo carnaval a família decidiu ir para Florianópolis.  Então alugamos um apartamento no centrinho da Praia dos Ingleses bem no burburinho.

Saímos de casa na sexta-feira às cinco da manhã, pegamos o Rodoanel e entramos na Régis Bittencourt. Em quinze minutos já estávamos na Régis e pensamos “Piece of cake”, “Molezinha, molezinha!”.


Como dizem por aí “Só que não!” Já passava das nove da manhã e ainda estávamos a poucos quilômetros de casa. Acho que foi a viagem de mais torturante dos últimos tempos, pois levamos quinze horas para percorrer 720 km.  E lá não foi diferente, para qualquer lugar que se tentasse havia congestionamento.  Trocamos seis por meia dúzia.

Não é que eu fiquei fresca, mas viajar no período do carnaval só se for de avião.

Ou então, como diz aquela canção “O melhor lugar do mundo é aqui. E agora.”, porque São Paulo fica absolutamente livre, vazia, inteirinha ao seu dispor. E você pode ir aos lugares sem congestionamentos nem filas de espera, podendo explorar e apreciar as belezas escondidas da cidade.

E você? Como gosta do seu carnaval?


sábado, 5 de janeiro de 2013

Poda


Hoje comecei a podar os pés de gardênia que floresceram em novembro. Durante todo o mês de novembro meu jardim ficou florido e perfumado. Com suas flores brancas e folhas de um verde brilhante e profundo, os pés de gardênia encantavam a todos. Só que para chegar neste ponto de floração, perfume e beleza, a planta passou por um longo processo que começou com a poda.

Podar é cortar os galhos débeis, doentes, as ponteiras que já deram flores e galhos que cresceram demais. Existe a poda de formação, a poda de limpeza, a poda de florescimento, a poda de adequação e a poda de reversão. Há também a poda drástica em que elimina mais de um terço do volume da copa (massa verde). Não vou me aprofundar no assunto porque não sou especialista em jardinagem.

Depois de podar a planta ela perde toda a beleza, pois boa parte do verde se vai ficando à mostra apenas os galhos que se fortalecerão e então irá brotar novos galhos e folhas de um verde intenso até chegar o momento de nascerem os botões e novamente o jardim se abrir em flor.

Eu tinha um enorme pé de manjericão plantado num vaso desde 2006. Da noite para o dia ele amanheceu murcho. Em vinte e quatro horas secou totalmente. O meu vaso com o frondoso manjericão virou saudade. Secou por completo. Fiz uma poda drástica já sem esperança.

Mas depois de um tempo fui olhar o vaso para decidir o que colocar no lugar do falecido manjericão e qual não foi a minha surpresa ao ver pequenas folhas verdes brotando daquela poda drástica. E o mais incrível é que as folhas que nasceram do falecido manjericão eram quatro vezes maiores do que as folhas que surgiram entre 2006 e 2012.

Penso que conosco funciona do mesmo jeito. A vida nos poda. Ela tira nossos excessos, corta nossos galhos. Perder uma pessoa querida. Perder o emprego. Perder a empresa. Contrair uma doença. Divorciar-se. Tudo isso eu chamo de podas. São nossos galhos sendo cortados. E parece que não vamos conseguir voltar a ser como éramos antes: uma planta frondosa, bonita e forte.

Mas o tempo vai passando e conseguimos nos recuperar e nos tornamos mais fortes, mais capazes.  Às vezes é preciso sofrer podas para crescermos mais fortes. Para que dali a algum tempo possamos gerar bons frutos e flores exuberantes.

Atualmente estou vivendo meu momento de poda, mas sei que esta poda me deixará muito mais forte, mais exuberante, mais capaz.

E você? Qual é o seu momento de vida, poda ou plena floração?